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28.01.2026

Cosme e Damião: o policiamento de proximidade que marcou época

Texto baseado na coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”.

 

Por Ten.-Cel. Valter Ribeiro da Silva1

 

 

A edição nº 53 da revista Militia2, de novembro de 1954, tratou de uma nova modalidade de policiamento que vinha sendo implementada pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, até então capital federal. Tal atividade estava sendo acolhida pela imprensa e pelo público como uma iniciativa que se encaixava no exercício das missões destinadas às Polícias Militares pela Constituição Federal, dando um novo rumo às Corporações na promoção da segurança do cidadão e na manutenção da ordem pública.

 

A revista citou uma crônica veiculada no jornal Diário Carioca de 3 de agosto daquele ano, o qual tratava dessa nova estratégia, o policiamento Cosme e Damião, que consistia no patrulhamento a pé realizado por dois policiais militares – daí a referência aos personagens católicos São Cosme e São Damião que viveram no final do séc. III e início do séc. IV. Segundo estudiosos, eles eram irmãos gêmeos e médicos que se dedicaram ao cuidado dos enfermos; por isso, para muitos, são considerados padroeiros dos médicos, farmacêuticos, parteiras e das faculdades de Medicina.

 

A PMPR adotou o policiamento Cosme e Damião em 1955, quando estava no comando do então Batalhão de Guardas (BG)3 o Tenente-Coronel Benedito Evangelista dos Santos. O jornal Diário do Paraná, de 11 de junho de 1960, registrou que o setor da Polícia mais próximo da população estava de aniversário, destacando a modalidade de policiamento Cosme e Damião.

 

Em algum momento, por conta da identidade criada com a Unidade, São Cosme e São Damião foram considerados os patronos do Batalhão de Guardas. Em virtude disso, no dia 26 de setembro era montada toda uma programação na Unidade para comemorar o dia dos Santos católicos.

Policiais militares do BG em patrulhamento a pé (Cosme e Damião) em Curitiba na década de 1960. Crédito: Revista da PM, 1967.

 

Em 30 de dezembro de 1960, o jornal Diário da Tarde ilustrou sua capa com uma foto em que mostrava uma dupla Cosme e Damião interagindo com a comunidade, em sua “vigilante tarefa”. De acordo com o periódico, “os soldados da Polícia Militar do Estado, denominados pela população Cosme e Damião, entregam-se, diariamente, à faina [tarefa] de policiar a cidade, numa missão de real importância para a segurança do povo curitibano”.

 

A revista do Batalhão de Guardas denominada Cosme e Damião4, de junho/julho de 1961, transcreveu o Boletim Especial alusivo ao 8º aniversário do BG, assinado pelo Tenente-Coronel Amado Bindi, Comandante da Unidade, o qual congratulou todos aqueles que labutaram na conhecida “unidade de elite” da Corporação, aclamada pela sua tradição e pela aplicação do policiamento Cosme e Damião.

 

A revista apresentou ainda uma análise das atividades de policiamento realizadas na capital paranaense, registrando que o serviço Cosme e Damião continuava sendo aplicado a pé e a cavalo, este último em cooperação com o Corpo de Polícia Montada e direcionado aos bairros mais afastados.

 

Para integrar o policiamento Cosme e Damião, o policial militar passava por um curso de quatro meses, que funcionava na Companhia Escola do Batalhão de Guardas, com a finalidade de aprimorar os conhecimentos do policial. No curso, eram ministradas aulas de defesa pessoal, boas maneiras, socorros de urgências, entre outras 11 disciplinas.

 

Com o objetivo de difundir os princípios e valores do novo policiamento, o Batalhão de Guardas lançou um livreto contendo os dez mandamentos do policiamento Cosme e Damião. A edição de 26 de abril de 1962 do jornal Diário do Paraná publicou esses mandamentos:

I - fazer prevalecer a prevenção sobre a repressão;

II -  empregar em intervenção policial o bom senso;

III - bem servir a sociedade;

IV - bem servir ao público;

V - ser cortês e delicado com os presos sob sua guarda;

VI - ser exemplo para todas as idades;

VII - aumentar seus conhecimentos;

VIII - zelar pelas tradições da Polícia Militar;

IX - jamais enodoar [macular] a farda da Polícia Militar;

X - ser fiel a si mesmo, ao serviço da pátria e a Deus.

 

Essa modalidade de policiamento deu tão certo que nos anos seguintes, com a criação de  novas unidades na Corporação, foi levada para outros centros urbanos do Estado. No entanto, diante da necessidade de cobrir áreas de policiamento maiores e do crescimento da indústria automobilística, gradativamente essa forma de policiamento foi dando lugar ao radiopatrulhamento com automóveis.

 

Essa e outras histórias e informações sobre a Polícia Militar do Paraná, você encontra na coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”, disponível na Associação dos Oficiais (Assofepar) e na Associação da Vila Militar (AVM).

 

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1 Oficial da Polícia Militar do Paraná, bacharel em Direito e co-autor da coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”. Contato: valtersilva75@gmail.com

 

2 Organizada e produzida pelo Clube dos Oficiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo, circulou entre 1947 e 1973.

 

3 O BG é o atual 12º BPM. Não deve ser confundido com o Batalhão de Polícia de Guardas (BPGd), criado na década de 1970.

 

4 Temos conhecimento de apenas um exemplar dessa revista que faz parte do acervo da Biblioteca Pública do Paraná.

 

Referências

POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ. Cosme e Damião. Revista do Batalhão de Guardas, Curitiba, 131 p., maio/jul. 1961. Acervo da Biblioteca Pública do Paraná.

 

SILVA, Valter Ribeiro; CONDE, Daniel Gonçalves. Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução – 1854-1917 – Volume I (2023) e 1917-1988 – Volume II (2024). 1ª ed. – Curitiba, PR: Edição do autor.

 

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