Quem levará a mensagem a Garcia?
Por Ten.-Cel. Valter Ribeiro da Silva1
Durante o Curso de Formação de Oficiais na Academia Policial Militar do Guatupê, entre os anos de 1997-1999, nos repassaram uma cópia do famoso artigo “Uma Mensagem a Garcia”. Recentemente, ao fazer uma “limpeza nas gavetas”, encontrei a minha cópia e comecei a refletir novamente sobre o significado do seu conteúdo nos dias atuais.
Escrito em 1899 por Elbert Hubbard, o texto entrou para a história como o trabalho literário de maior tiragem já registrada durante a vida de um autor. Nascido de um ímpeto criativo, o artigo brotou do desejo de Hubbard de despertar a iniciativa e a atitude nas pessoas ao seu redor. Rapidamente, a obra ultrapassou as páginas da revista estadunidense Philistine e ganhou o mundo, tornando-se uma verdadeira referência global sobre comprometimento, proatividade e cumprimento do dever — valores que, ao lado da hierarquia e disciplina, são os pilares da carreira militar.

Imagem da capa do exemplar do autor recebido durante o CFO na APMG
A narrativa imortalizou figuras ilustres da História: o então presidente dos Estados Unidos, William Mac Kinley, que precisava enviar uma comunicação crucial; o destemido mensageiro, Tenente Andrew Summers Rowan; e o destinatário, o líder insurreto cubano, Major-General Calixto Ramón García Iñiguez. Hoje, mais de um século após sua publicação, a obra transcende seus ilustres personagens reais e o contexto de sua época. A mensagem permanece atual, servindo como uma fonte de inspiração atemporal para todos aqueles que recebem uma missão e a cumprem sem hesitações, afinal de contas “missão dada, é missão cumprida”!
Vamos, então, à célebre lição de Hubbard:
Em todo este caso cubano, um homem se destaca no horizonte de minha memória como o planeta Marte no seu periélio. Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era comunicar-se rapidamente com o chefe dos insurretos, Garcia, que se sabia encontrar-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse precisar exatamente onde. Era impossível comunicar-se com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente [Mac Kinley] tinha que tratar de assegurar-se da sua colaboração, e isto o quanto antes. Que fazer?
Alguém lembrou ao presidente: “Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan”.
Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito e, após quatro dias, saltou de um barco sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba; de como ele se embrenhou no sertão, para, depois de três semanas, surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um país hostil e entregado a carta a Garcia, são coisas que não vêm ao caso narrar aqui pormenorizadamente.
O ponto que desejo frisar é este: Mac Kinley deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; Rowan pegou a carta e nem sequer perguntou: “Onde é que ele está?”
Hosana! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze perene e sua estátua colocada em cada escola do país. Não é de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem de instrução sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um endurecimento das vértebras, para poder mostrar-se altiva no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia!
O General Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias. A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante uma empresa, em que a ajuda de muitos se torne precisa, têm sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade de grande número de homens, ante a inabilidade ou a falta de disposição de concentrar a mente numa determinada coisa que precisa ser feita, e fazê-la.
Assistência irregular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho mal feito parecem ser a regra geral. Nenhum homem pode ser verdadeiramente bem sucedido, salvo se lançar mão de todos os meios ao seu alcance, quer da força, quer do suborno, para obrigar outros homens a ajudá-lo, a não ser que Deus Onipotente, na sua grande misericórdia, faça um milagre enviando-lhe como auxiliar um anjo de luz.
Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova. Estás sentado no teu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados. Pois bem, chame um deles e peça-lhe: “Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e de me fazer uma descrição sucinta da vida de Corrégio.”
Dar-se-á o caso de o empregado dizer calmamente: “Sim, senhor” e executar o que lhe pediu?
Nada disso! Olhar-te-á perplexo e de soslaio para fazer uma ou mais das seguintes perguntas:
“Quem é ele?”
“Que enciclopédia devo consultar?”
“Onde é que está a enciclopédia?”
“Fui acaso contratado para fazer isso?”
“O senhor não quer dizer Bismarck?”
“E se Carlos o fizesse?”
“Esse Corrégio já morreu?”
“Precisa disso com urgência?”
“Não será melhor que eu traga o livro para que o senhor mesmo procure o que quer?”
“Para que o senhor quer saber disso?”
E aposto dez contra um que, depois de haveres respondido a tais perguntas e explicado a maneira de procurar os dados pedidos e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Garcia, e, depois voltará para te dizer que tal homem não existe. Evidentemente, pode ser que eu perca a aposta; mas, segundo a lei das médias, jogo na certa.
Ora, se fores prudente, não te darás ao trabalho de explicar ao teu “ajudante” que Corrégio se escreve com “C” e não com “K” , mas limitarás a dizer-lhe meigamente, esboçando o melhor sorriso: “Não faz mal; não se incomode”, e, dito isto, te levantarás e procurarás tu mesmo. É esta incapacidade de atuar independentemente, esta inépcia moral, esta invalidez da vontade, esta atrofia de disposição de solicitamente se pôr em campo e agir – são as coisas que transferem para um futuro tão remoto o advento do socialismo puro. Se os homens não tomam iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão quando o resultado do seu esforço redundar em benefício de todos? Por enquanto parece que os homens ainda precisam de ser feitorados. O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não fizer, ser despedido no fim do mês. Anuncie precisar de um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar – e, o que é pior, pensarão que não é necessário sabê-lo.
Poderá uma pessoa dessas escrever uma carta a Garcia?
“Vê aquele guarda-livros?”, dizia-me o chefe de uma grande fábrica.
“Sim, que tem ele?”
“É um excelente guarda-livros. Contudo, se eu o mandasse transmitir um recado, talvez se desobrigasse da incumbência a contento, mas também podia muito bem ser que no caminho entrasse em duas ou três casas de bebidas, e que, quando chegasse ao seu destino, já não se recordasse mais da incumbência que lhe fora dada.”
Será possível confiar a um tal homem uma carta para entregá-la a Garcia?
Ultimamente temos ouvido muitas expressões sentimentais, externando simpatia para com os pobres entes que mourejam de sol a sol, para com os infelizes desempregados à cata de trabalho honesto, e tudo isto quase sempre entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder.
Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente; nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que “matar o tempo”, logo que ele volta as costas. Não há empresa que não esteja despedindo pessoal que se mostra incapaz de zelar pelos seus interesses, a fim de substituí-lo por outro mais apto. Este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente, em tempos adversos, com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis.
É a lei da sobrevivência do mais apto. Cada patrão, no seu próprio interesse, trata de guardar os somente melhores – aqueles que podem levar uma mensagem a Garcia.
Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra precisa para gerir um negócio próprio e que, ademais, se torna completamente inútil para qualquer outra pessoa, devido à suspeita insana que constantemente abriga de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera que alguém mande nele. Se lhe fosse confiada uma mensagem a Garcia, retrucaria provavelmente: “Leve-a você mesmo”.
Hoje este homem perambula errante pelas ruas em busca de trabalho, em quase petição de miséria. No entanto, ninguém que o conheça se aventura a dar-lhe trabalho, porque é a personificação do descontentamento e do espírito de réplica. Refratário a qualquer conselho ou admoestação, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota número 42, sola grossa e bico largo.
Sei, não resta dúvida, que um indivíduo moralmente aleijado como esse não é menos digno de compaixão que um fisicamente aleijado. Entretanto, nesta demonstração de compaixão, vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, cujas horas de trabalho não estão limitadas pelo som de um apito e cujos cabelos ficam prematuramente encanecidos na incessante luta em que estão empenhados contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa e a ingratidão atroz, justamente daqueles que, sem o seu espirito empreendedor, andariam famintos e sem lar.
Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiado carregadas? Pode ser que sim; mas, quando todo mundo se apraz em divagações, quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que imprime êxito a um empreendimento, ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros, e que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou; nada, salvo a sua mera subsistência.
Também eu carreguei marmitas e trabalhei como jornaleiro, como também tenho sido patrão. Sei, portanto, que alguma coisa se pode dizer de ambos os lados. Não há excelência na pobreza de per si; farrapos não servem de recomendação. Nem todos os patrões são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.
Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscienciosamente, quer o patrão esteja, quer não. É o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranquilamente toma a missiva, sem fazer perguntas idiotas, e sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro feito que não seja entregá-la ao destinatário. Este homem nunca fica “encostado”, nem tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado.
A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que um tal homem pedir, ser-lhe há de conceder. Precisa-se dele em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso: “Precisa-se, e precisa-se com urgência, de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia”.
É claro que o mundo mudou muito desde a época em que Rowan recebeu a missão de levar a mensagem a Garcia. Hoje, temos outros recursos, mais informações e meios de comunicação que facilitam o cumprimento das nossas tarefas. Mas, no fundo, algumas coisas continuam iguais: a disposição para agir, a iniciativa para encontrar soluções e o compromisso de fazer bem aquilo que nos foi confiado. Mais do que simplesmente cumprir ordens, é preciso compreender a missão e assumir a responsabilidade de levá-la até o fim. Afinal, os tempos mudaram, os meios são outros, mas a pergunta de Hubbard continua atual: quem levará a mensagem a Garcia?
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- Oficial da Polícia Militar do Paraná, bacharel em Direito e co-autor da coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”. Contato: valtersilva75@gmail.com