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20.01.2026

Pistolas, garruchas ou bucaneiras? Qual a origem da insígnia das Polícias Militares?

Texto baseado na coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”.

 

Por Valter Ribeiro da Silva[1]

 

O símbolo das pistolas cruzadas, elemento central na identidade visual das Polícias Militares brasileiras, possui uma trajetória histórica que remonta ao início do século XX e cruza fronteiras internacionais.

 

A gênese deste símbolo reside no Exército norte-americano, que adotou as pistolas cruzadas em 1922. Até os dias atuais, a insígnia é utilizada pelo Military Police Corps (Corpo de Polícia Militar), que é o segmento do Exército daquele país responsável, entre outras missões, pela segurança e investigação criminal no âmbito das Forças Armadas. Ao descrever a heráldica do Brasão de Armas da corporação norte-americana, Wright Jr. (1992) registra que “as pistolas cruzadas simbolizam a missão do Corpo de Polícia Militar do Exército dos EUA: fazer cumprir a lei e manter a ordem”. Além disso, o lema daquela corporação é: “Assistir, Proteger e Defender.”

 

De acordo com o Coronel Galdino Neto, da Polícia Militar do Estado de São Paulo e estudioso da medalhística militar, as pistolas usadas no distintivo das Polícias Militares são do modelo 1805 (M1805), calibre .54, de pederneira, as quais eram fabricadas no Arsenal Harper’s Ferry, do governo dos EUA – daí a denominação informal de pistolas Harper’s Ferry.

Pistola Harper’s Ferry, modelo 1805, que figura na insígnia adotada pelo Corpo de Polícia Militar dos EUA em 1922.

Crédito da imagem: Sergio.chechoguitar

 

 

O primeiro registro oficial desse símbolo no Brasil foi feito por meio do Boletim do Exército n. 30/1944, que tornou público o Aviso n. 1.840, de 11 de julho de 1944, o qual aprovou o distintivo da Polícia Militar[i] da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária. O mesmo ato trazia a seguinte observação: “Esse distintivo, que é idêntico ao adotado no Exército Americano, deve ser bordado a linha cinza na gola dos uniformes.” O distintivo foi incorporado ao fardamento para identificar os integrantes do Pelotão de Polícia Militar (PPM) do Exército que iriam compor as tropas brasileiras na Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, o pelotão foi transformado em Companhia de Polícia Militar, a qual, após a guerra, deu origem à Polícia do Exército (PE).

 

 

Distintivo das tropas da Polícia Militar da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária brasileira, que lutou na Segunda Guerra Mundial.

Fonte da imagem: Exército Brasileiro.

 

Na Polícia Militar do Paraná (PMPR), a adoção do distintivo ocorreu em 31 de outubro de 1967, conforme publicado no Boletim Geral n. 242. Os Subtenentes usavam o distintivo no ombro, junto à insígnia correspondente, e os Sargentos e Cabos o usavam abaixo das divisas. A partir daquele momento, a Corporação abandonou o distintivo formado pelos dois fuzis cruzados, que até hoje é utilizado pela arma de infantaria do Exército.

 

Segundo Everaldo Guilmann (2010), na obra Uniformes da Polícia Militar do Paraná, em 1967 os Oficiais PM combatentes também passaram a utilizar na gola da farda o distintivo das pistolas cruzadas.

 

Em 1971, o Exército Brasileiro, atendendo o previsto no decreto federal que aprovou o Regulamento de Uniformes do Exército (RUE), viria a editar as Normas Gerais para a Confecção e Uso do Distintivo Básico e das Insígnias das Polícias Militares. O ato seria materializado por meio da Portaria Ministerial n. 340-DF[ii], de 4 de outubro de 1971, que no seu art. 1º dizia: “O distintivo básico é constituído por 2 (duas) garruchas cruzadas, de metal dourado, na forma da fig. n.º 1”.

Distintivo básico das Polícias Militares, instituído pela Portaria n. 340-DF/1971 do então Ministério do Exército. Imagem extraída do citado ato normativo.

 

Como se pode notar, especialmente por conta da origem norte-americana, normalmente se utiliza a expressão “pistolas cruzadas”, porém a norma do Exército Brasileiro as tratou como “garruchas”, as quais eram muito populares naquele período, talvez na intenção de buscar como símbolo algo mais palpável, dentro de um espírito nacionalista.

 

Atualmente, é muito comum se referir às pistolas cruzadas como “pistolas bucaneiras” ou simplesmente “bucaneiras”; no entanto, conforme destaca o Coronel Galdino Neto, isso não passa de uma lenda. Segundo ele, os bucaneiros, que eram piratas e foragidos da região das Antilhas (América Central), existiram somente até o início do séc. XVIII, e as pistolas Harper’s Ferry começaram a ser produzidas no séc. XIX. Portanto, para o pesquisador, seria impossível que elas tivessem qualquer relação com os bucaneiros.

 

Fato é que, na maioria dos países, com pequenas variações, o símbolo da arma de infantaria é representado por dois fuzis cruzados. E como normalmente o policial utiliza uma arma curta na sua atividade diária, a substituição pelas pistolas cruzadas deu-se de forma quase natural. Assim, de certo modo, surge a “arma policial”, considerando que no decorrer do tempo esse distintivo passou a ser utilizado pelas Polícias Militares brasileiras e pelas unidades de Polícia do Exército.

 

O símbolo hoje não apenas identifica os integrantes das Polícias Militares e da Polícia do Exército, mas também carrega consigo décadas de tradição e o compromisso com a ordem pública.

 

Essa e outras histórias e informações sobre a Polícia Militar do Paraná, você encontra na coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”, disponível na Associação dos Oficiais (Assofepar) e na Associação da Vila Militar (AVM).

 

 

[1]Tenente-Coronel da Polícia Militar do Paraná, graduado em Direito e co-autor da coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”. valtersilva75@gmail.com

 

[i] Em verdade, essa seria uma unidade da Polícia do Exército.

[ii] Esse ato normativo foi revogado pela Portaria do Exército n. 345, de 2 de junho de 1997, entretanto continua regendo os distintivos e insígnias das Polícias Militares. 

 

Referências

 

GALDINO NETO. O Símbolo de Polícia Militar: As Pistolas Cruzadas. Disponível em: https://medalhisticamilitarpaulista.blogspot.com/2012/06/o-simbolo-de-policia-militar-as.html. Acesso em: 18 jan. 2026.

 

GUILMANN, Everaldo. Uniformes da Polícia Militar do Paraná: histórico do fardamento da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros – 1854 a 2004. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 2010.

 

SILVA, Valter Ribeiro; CONDE, Daniel Gonçalves. Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução – 1854-1917 – Volume I (2023) e 1917-1988 – Volume II (2024). 1ª ed. – Curitiba, PR: Edição do autor.

 

WRIGHT JUNIOR, Robert K. (comp.). Military Police. Washington, DC: US Army, 1992. Army Lineage Series. Disponível em: https://history.army.mil/portals/143/Images/Publications/catalog/60-9.pdf . Acesso em: 18 jan. 2026.