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29.06.2026

Do Pátio do Quartel às Arquibancadas: A Ligação Histórica entre a PMPR e o Futebol

Texto baseado na coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”.

 

Por Ten.-Cel. Valter Ribeiro da Silva1

 

 

É inegável que o futebol é uma paixão nacional, mas historicamente qual é a relação da Polícia Militar com esse esporte tão amado pelos brasileiros?

 

Os primeiros registros de praticantes de futebol no Paraná são do início do século XX, mas foi em outubro de 1909, em Ponta Grossa, que aconteceu a primeira partida “profissional” entre o Club de Foot Ball Tiro Pontagrossense e o Clube Teuto Brasileiro, com vitória do time dos campos gerais por 1 x 0.

 

Considerando que no Clube Teuto não havia espaço, os jogadores começaram a dar os “primeiros chutes” no campo localizado atrás do Quartel do Comando-Geral, onde hoje está o ginásio do Centro de Educação Física e Desportos (CEFID). Esse foi o “pontapé” inicial para a fundação do primeiro clube de futebol da capital, o Coritibano Foot Ball Club, que em seguida mudou o nome para Coritiba Foot Ball Club.

 

Vista parcial do “estádio” de atividade física da Força Policial no ano de 1945.

 

Clube Tiradentes - Nos anos seguintes foram fundados o Operário Ferroviário Esporte Clube de Ponta Grossa (1912); o Rio Branco Sport Club de Paranaguá (1913) e o Iraty Sport Club (1914). Nessa onda de criação de clubes, a então Força Militar do Paraná também criou seu time de futebol, denominado “Club de Foot Ball Tiradentes”, de acordo com o jornal A República, de 6 de junho de 1919.

 

A matéria dizia que, depois de autorizado pelo Comandante, fora organizado entre os Inferiores (subtenentes e sargentos) e Praças da Força Militar um “Club de Foot Ball denominado Tiradentes”. A diretoria do clube tinha como presidente o Sargento Benedito Evangelista dos Santos, além de secretários, comissão de contas, diretores esportivos e fiscal de campo.

 

Dois anos depois, o mesmo jornal noticiou que o Tiradentes Foot Ball Club promoveria no campo do Britannia Esporte Club2 um festival esportivo. A primeira parte do festival seria um jogo amistoso entre o Tiradentes e o Guarany3; e a segunda parte seria composta por corrida de velocidade e outras atividades esportivas e culturais.

 

Após essas notícias iniciais sobre o Clube Tiradentes, não foram encontrados registros históricos sobre seu fim ou fusão com outro time.

 

Policiamento - Nos anos seguintes as evidências históricas mostram que a Polícia Militar “deixa o campo” para se dedicar à segurança dos estádios, especialmente com o aumento da rivalidade entre os times da capital.

 

Em 1944, por conta da atuação no policiamento de futebol no Estádio Belfort Duarte (atual Estádio Major Antônio Couto Pereira), o então Aspirante a Oficial João André Dias Paredes e diversas Praças foram elogiados pelo Comandante-Geral da Força Policial, “pela compreensão perfeita que demonstraram possuir das elevadas finalidades de suas funções, no desempenho da missão que é a razão da existência desta Corporação”. De acordo com o registrado nas páginas da revista Sentinela n. 32, de 1944, os policiais agiram prontamente quando um grupo numeroso de pessoas tentou agredir o árbitro do jogo, o qual teve a sua integridade física preservada. Algumas Praças, no entanto, ficaram feridas.

 

Copa de 1950 - Nos dias 25 e 29 de junho de 1950, Curitiba sediou dois jogos da Copa do Mundo de futebol, o primeiro entre as seleções da Espanha e Estados Unidos (placar: 3x1), e o segundo entre Suécia e Paraguai (placar: 2x2). Com o título “Nada de bombas e foguetes”, o jornal O Dia publicou matéria com recomendações especiais ao público que iria comparecer ao Estádio Durival de Britto e Silva, popularmente chamado de Vila Capanema, inaugurado em 23 de janeiro de 1947 (era o 3º maior estádio do país).

 

O periódico frisou que haveria “o máximo policiamento dentro do estádio” e que os torcedores não deveriam “levar bombas e nem foguetes”, pois não seria “permitida a soltura de quaisquer fogos dentro daquela praça de esportes”. A matéria encerrou dizendo: “Essas recomendações devem [ser] cumpridas a risca. / Outra cousa de que estamos informados é de que haverá um policiamento energico dentro do estádio. / Portanto, nada de brincadeiras e nada de irregularidades, sob pena de punição para os ‘engraçadinhos’. / Trata-se de um espetaculo imponente, que não poderá ser afetado em seu desenrolar, por nenhuma brincadeira de máu gosto.

 

Orientações de segurança - O Diário do Paraná, de 7 de julho de 1971, noticiou que a PMEP estava “inovando em matéria de comunicação” para melhorar a segurança nos estádios. A iniciativa, implementada pelo Serviço de Relações Públicas, consistia na distribuição de um folheto aos torcedores, com “linguagem muito polida”, convidando as pessoas a colaborarem com a Corporação em sua missão de zelar pela segurança dos frequentadores das praças esportivas.

 

Naquela data, à noite, o folheto seria distribuído na entrada do estádio do Alto da Glória, onde ocorreria o clássico Atletiba, que terminou em 2 x 1 para o time alviverde. A mensagem começava dizendo: “Foi bom o senhor ter vindo. Para nós o senhor é importante.” Em seguida, após fazer votos de boa diversão, advertia: “Queremos que retorne a seu lar em perfeitas condições físicas. Caso surja alguma situação anormal, não corra. Procure manter a calma. Não empurre quem estiver na frente. Os portões são largos e permitem a saída de todos.”

 

                  

Recorte do jornal Diário do Paraná, de 7 de julho de 1971, com trechos do folheto distribuído aos torcedores.

 

Proibições e revista pessoal - No uso de sua competência de polícia administrativa, fundamentada no Decreto-Lei nº 667/1969 e Decreto Federal nº 66.862/1970, a 3ª Seção da Polícia Militar baixou diretrizes quanto ao policiamento ostensivo em campos de futebol, conforme destacado pelo Diário do Paraná de 7 de julho de 1971. As normas proibiam a entrada de torcedores nos estádios portando frutas, garrafas e outros objetos que pudessem se tornar um “instrumento de agressão”.

 

Na ocasião, também foi oficializada a revista pessoal para ingressar no estádio, visando a reprimir o porte de armas. O jornal apoiou a iniciativa dizendo que “as medidas tomadas há muito se faziam necessárias em virtude do comportamento abusivo de maus torcedores que utilizam frutas e outros objetos para agredir árbitros, jogadores e policiais”.

 

No ano seguinte a segurança dos estádios continuava a preocupar as autoridades policiais. Em razão disso, para evitar a perturbação da ordem e a utilização do sabugo como objeto de arremesso, a Polícia Militar proibiu a venda de milho cozido nos estádios da capital. Diante disso, a “mater araucariana”, como era chamada a Federação Paranaense de Futebol, expediu circular aos “clubes profissionais” informando a decisão da Corporação, conforme noticiado no Diário da Tarde de 10 de março de 1972.

 

Interdição dos estádios - Sob a justificativa de garantir a segurança e o conforto do público, a Polícia Militar interditou os estádios Joaquim Américo (atual Mário Celso Petraglia) e Belfort Duarte (atual Major Antônio Couto Pereira), o que foi notícia na edição de 19 de março de 1976 do Diário do Paraná.

 

A interdição do Joaquim Américo foi comunicada à Federação Paranaense de Futebol por meio de ofício assinado pelo Comandante da PM, Coronel Cesar Tasso Saldanha, o qual pontuava a falta de segurança para o público em caso de superlotação, a fragilidade dos alambrados, falta de sanitários, falta de segurança para os jogadores e para o árbitro. O outro ofício de interdição, referente ao estádio.

 

Belfort Duarte, foi assinado pelo Coronel Albari Marcondes Pimpão, Comandante do Destacamento Policial nos Estádios do Paraná, e exigia a retirada de tapumes, a construção de sanitários nas arquibancadas e o controle na venda de bebidas. Segundo a matéria, o futebol paranaense estava em “pé de guerra”.

 

Como se depreende desta evolução histórica, a ligação entre a PMPR e o futebol transcende as arquibancadas. O mesmo pátio de quartel que viu o esporte nascer na capital testemunha hoje o empenho da corporação em proteger quem vai aos estádios, em um constante equilíbrio entre o entusiasmo do esporte e o peso da responsabilidade pública. Esse ponto de tensão, longe de afastar a instituição do esporte, reforça o compromisso histórico da Polícia Militar em zelar para que a paixão nacional caminhe sempre de mãos dadas com a paz social, mantendo as arquibancadas como ambientes seguros para todas as famílias.

 

Essas e outras histórias e informações sobre a Polícia Militar do Paraná, você encontra na coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”, disponível na Associação dos Oficiais (Assofepar) e na Associação da Vila Militar (AVM).

 

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1. Oficial da Polícia Militar do Paraná, bacharel em Direito e co-autor da coletânea “Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução - Volume I (1854-1917) e Volume II (1917-1988)”. Contato: valtersilva75@gmail.com

2. Extinto em 1971, após sua fusão com o Clube Atlético Ferroviário e o Palestra Itália Futebol Clube, com a criação do Colorado Esporte Clube, atual Paraná Clube.

3. Possivelmente seja o Guarani Esporte Clube, de Ponta Grossa, que foi fundado em 1914 e ainda está em atividade.

 

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Referências

 

PARANÁ. Secretaria da Administração e da Previdência. Origem do Futebol Paranaense. Disponível em: https://www.administracao.pr.gov.br/Pagina/Origem-do-Futebol-Paranaense

 

SILVA, Valter Ribeiro; CONDE, Daniel Gonçalves. Polícia Militar do Paraná: Origem e Evolução – 1854-1917 – Volume I (2023) e 1917-1988 – Volume II (2024). 1ª ed. – Curitiba, PR: Edição do autor.

 

TRIBUNA DO PARANÁ. História do Coritiba começou no Alto São Francisco. Disponível em: https://www.tribunapr.com.br/esportes/coritiba/historia-do-coritiba-comecou-no-alto-sao-francisco/.